Notícia in Lusa,

28 Mai 2004

Autoridades alertam que observação directa do Trânsito Solar de Vénus pode cegar

 

A observação directa do planeta Vénus, que a 08 de Junho será possível em Portugal e só se repetirá em 2117, pode lesar a visão e provocar cegueira, alerta a Direcção-Geral de Saúde, que vai realizar uma campanha de prevenção.

O fenómeno astronómico, intitulado Trânsito Solar de Vénus, consiste na passagem do planeta Vénus - o planeta mais próximo da Terra - pelo disco solar durante toda a manhã de 08 de Junho.

O Trânsito Solar de Vénus é uma oportunidade única para as pessoas observarem este planeta a olho nu, ainda que, visto da Terra, tenha o tamanho de um pequeno ponto negro que passará à frente do Sol.

Dada a sua localização, em frente do Sol, as pessoas que tentarem observar o planeta Vénus poderão sofrer "graves lesões na visão", segundo alerta a Direcção Geral da Saúde (DGS).

O risco de lesão existe porque os olhos são particularmente sensíveis à acção dos raios solares - ultravioletas e infravermelhos - que lesam a retina, a camada nervosa dos olhos que comanda a visão e a função visual.

A retina pode ser "queimada" por uma reacção química, tal como acontece com a pele quando em contacto com a cal, levando a perturbações da visão, transitórias ou definitivas, que podem ir da sua diminuição até à cegueira total.

Segundo a DGS, correm um risco acrescido de sofrer graves lesões oculares com a observação directa do Trânsito Solar de Vénus as pessoas com cristalinos (órgão lenticular situado na parte anterior do globo ocular) mais transparentes, como os jovens, as que não possuam cristalino por terem sido operadas a cataratas ou as que foram submetidas a cirurgias que enfraqueceram a retina.

Indivíduos que sofrem de retinopatia diabética, que estejam a tomar antibióticos ou possuam um fundo ocular muito pigmentado têm igualmente um risco acrescido de sofrer lesões na visão se observarem directamente o sol.

Por estas razões, o Ministério da Saúde estabeleceu uma parceria com a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia (SPO), o Observatório Astronómico de Lisboa e a Associação Nacional de Farmácias para levar a cabo uma campanha de prevenção que visa sensibilizar a população para a oportunidade de observar um fenómeno único, mas tendo em conta a protecção da visão.

Da campanha consta a difusão de mensagens pela comunicação social e a distribuição de folhetos e de cartazes informativos.

A SPO irá aconselhar e encaminhar, através da Linha de Saúde Pública (80821311 - chamada local), as pessoas que tenham sintomas visuais atribuíveis à observação directa do Trânsito Solar de Vénus.

Por seu lado, a ANF está a distribuir nas 2.700 farmácias associadas filtros de protecção ocular (óculos especiais) ao preço unitário de 1,5 euros.

As autoridades de saúde recomendam que os óculos especiais sejam utilizados por períodos curtos de tempo, assim como a observação indirecta do fenómeno.

Os curiosos não podem utilizar óculos escuros, vidros negros de fumo, negativos de fotografias, radiografias, ou óculos especiais que tenham sido utilizados, pois podem ter microfuros, arranhões ou imperfeições que deixem passar radiação.

O Trânsito Solar de Vénus - que este ano poderá ser visto em Portugal, tal como na maior parte da Europa, Ásia e África - foi usado no passado pelos cientistas para calcular a distância entre a Terra e o Sol.

Vénus, por ser o segundo planeta do sistema solar, depois de Mercúrio, demora só 225 dias a descrever uma órbita em volta do Sol a uma distância de 0,72 unidades astronómicas (UA, distância entre a Terra e o Sol: cerca de 150 milhões de quilómetros) e com uma ligeira inclinação de 3,5 graus em relação à Terra.

É devido a esta geometria espacial e à dinâmica dos planetas em redor do Sol que o trânsito de Vénus só se observa de oito em oito anos e muito espaçadamente no tempo.

Embora o interesse científico do fenómeno seja hoje em dia escasso, sendo aproveitado mais para iniciativas de divulgação, os cientistas atribuíram-lhe grande importância no passado e aproveitaram-nos sobretudo para medir a distância entre a Terra e o Sol mediante técnicas de paralaxe e cálculos matemáticos.

A primeira observação do fenómeno foi feita em 1639 por Jeremias Horrocks, embora o fenómeno tivesse sido já notado em 1631.

A última vez que Vénus foi visível a olho nu foi há 122 anos e o fenómeno só se repetirá em Portugal no ano de 2117.