Notícia in Lusa,

25 Fev 2004

 

Missão Rosetta inspirada na decifração dos hieróglifos egípcios

A nave não tripulada europeia que na quinta-feira parte para uma viagem espacial de dez anos até ao cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko deve o nome à Pedra Rosetta, que ajudou a descobrir os segredos da civilização egípcia.

Quanto ao seu módulo de aterragem, que deverá aterrar no núcleo do cometa em finais de 2014, chama-se Philae, o nome de uma pequena ilha do rio Nilo em que foi encontrado um obelisco com uma inscrição bilingue com os nomes de Cleópatra e Ptolomeu em hieróglifos egípcios.

Foi este obelisco que forneceu ao historiador francês Jean- François Champollion as pistas finais para decifrar os hieróglifos da Pedra Rosetta e descobrir segredos da civilização do antigo Egipto.

É assim que, para a Agência Espacial Europeia (ESA), o módulo Philae e a sonda Rosetta aspiram a descobrir os mistérios dos mais antigos testemunhos da formação do sistema solar, há 4,6 mil milhões de anos, tal como o Obelisco de Philae e a Pedra Rosetta desvendaram os segredos daquela civilização.

O nome do módulo surgiu de um concurso organizado pelos principais contribuintes para a Missão, nomeadamente a Alemanha, França, Itália e Hungria, em colaboração com a Áustria, Finlândia, Irlanda e reino Unido.

Foi uma italiana de 15 anos, Serena Olga Vismara, de Arluno, perto de Milão, que ganhou o concurso ao propor o nome Philae. O seu prémio foi uma visita a Kourou, na Guiana Francesa, para assistir na quinta-feira o lançamento da missão.

O estudo do cometa Churyumov-Gerasimenko permitirá aos cientistas recuar 4,6 mil milhões de anos até uma época em que ainda não existiam planetas, mas apenas uma grande quantidade de asteróides em volta do Sol.

Quando chegar ao seu destino, em 2014, o Philae será ejectado da sonda para descer suavemente no núcleo do cometa com a ajuda de três pernas e de um arpão que o agarrará ao solo, impedindo que escape à extremamente fraca gravidade do local.

O Philae determinará as propriedades físicas da superfície e sub-superfície do cometa, bem como a sua composição química, mineralógica e isotópica.

Estes dados completarão os estudos da sonda Rosetta, que permanecerá em órbita, sobre a caracterização geral das propriedades dinâmicas e morfologia da superfície do cometa.

Se tudo correr conforme o planeado, o módulo Philae poderá fornecer importantes pistas para ajudar a descobrir os segredos da origem da vida na Terra.

 

Sonda Rosetta leva 12 m2 de alta tecnologia rumo a um cometa

A sonda europeia Rosetta, que na quinta-feira parte para uma viagem de estudo de dez anos até ao cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, leva a bordo 12 metros cúbicos de alta tecnologia.

Os dez anos de duração da viagem submeterão esse equipamento a duras condições, já que todos os instrumentos deverão estar a funcionar em pleno quando a sonda chegar ao seu destino.

Durante a viagem haverá um período de dois anos e meio em que todos os sistemas da nave, incluindo os científicos, estarão desligados, em "hibernação", estando apenas operacional o computador de bordo.

O hardware da Rosetta vai metido numa caixa de alumínio de 12 metros cúbicos, estando os instrumentos científicos montados na parte superior, e os subsistemas - incluindo computador de bordo, transmissor e sistema de propulsão - em baixo.

O módulo de aterragem, chamado Philae, está fixado na parte oposta da sonda, junto à antena articulada.

Quando a sonda estiver a orbitar o cometa, dentro de dez anos, os instrumentos científicos estarão permanentemente orientados para a sua superfície, enquanto a antena e os painéis solares estarão virados para a Terra e o Sol, respectivamente.

A Rosetta parte com 1.650 quilogramas de propulsor a bordo, o que representa mais de metade da sua massa no lançamento, estando disponível para tarefas científicas apenas 20 por cento da sua massa total.

Na sonda irão 11 instrumentos científicos e no módulo de aterragem outros 10, concebidos para analisar a composição e estrutura do núcleo do cometa e estudar a sua interacção com o vento solar e o plasma interplanetário.

"Para que a sonda disponha de toda a energia necessária, vai munida com o maior painel solar até agora transportado por um satélite europeu", afirmou Manfred Warhaut, chefe de Operações da Agência Espacial Europeia (ESA) em Darmstadt, Alemanha.

Única fonte de energia da nave, estes painéis estendem-se por 32 metros de um extremo ao outro, com 64 metros quadrados de superfície, e podem rodar 180 graus para captar o máximo de luz solar.

Estas dimensões serão essenciais pois quando a Rosetta se encontrar com o cometa estará a 675 milhões de quilómetros do Sol.

A essa distância, a radiação solar é muito fraca e os colectores solares fornecem apenas 440 watts de potência, em comparação com os 8.000 watts no final da missão, quando ambos se aproximarem da menor distância do Sol (150 milhões de quilómetros).

"A sonda também está equipada com um conjunto de baterias de 10 amperes/hora para manter o fornecimento de energia enquanto ela viajar na sombra do cometa", referiu Warhaut.

Quanto ao módulo de aterragem, Philae, os seus instrumentos servirão para investigar a superfície e localização do cometa. Graças a um braço mecânico, este módulo irá operar dentro de um raio de dois metros.

Garantir uma aterragem suave do módulo constituirá um difícil desafio, dada a força gravitacional extremamente fraca exercida pelo núcleo do cometa. Por isso, apesar de pesar 100 quilos na Terra, será tão leve no cometa como uma folha de papel.

Se houver um recuo, por pequeno que seja, o módulo poderá ressaltar descontroladamente como uma bola de borracha.

Para que isso não aconteça, as suas três pernas estão equipadas com absorvedores especiais de choques que recolherão a maior parte da energia cinética, estando também munidas de pitons para gelo que se enterrarão no momento da aterragem.

Ao mesmo tempo, o módulo disparará um arpão que o agarrará ao solo, o que será também uma oportunidade para investigar as propriedades mecânicas da superfície.

"Se tudo correr de acordo com o planeado, os resultados da missão poderão ampliar fundamentalmente o nosso conhecimento dos cometas, tal como a Pedra Rosetta, que deu o nome à sonda, ajudou a revelar o mistério dos hieróglifos egípcios", afirmou Manfred Warhaut.