| Notícia in Público,
09
Set 2005
Dunas marcianas
podem conter 25 mil banheiras de água.
Há
um lugar em Marte onde muitos não arriscariam procurar
água: as dunas de areia da cratera de Kaiser, as maiores
da superfície marciana e do sistema solar. Mas uma
cientista norte-americana estudou imagens de Marte e diz
que a cratera Kaiser pode esconder qualquer coisa como 25
mil banheiras cheias de água.
A descoberta é mais um passo a favor da
possibilidade de alguma vez ter existido vida em Marte,
numa altura em que a sonda europeia Mars Express sofreu um
revés, ao perder um instrumento que estava a ser usado
para confirmar a presença de metano na atmosfera de Marte,
que pode ser outro indício de vida.
"Se quisermos encontrar uma fonte de água para futuras
missões, devemos procurar a duna mais próxima", disse Mary
Bourke, do Instituto de CIência Planetária, no Arizona
(Estados Unidos), durante uma apresentação no Festival de
Ciência das associações científicas das ilhas britânicas,
a decorrer em Dublin, na Irlanda.
"Isto é ainda mais importante do que se entende à primeira
vista, uma vez que as dunas de areia estão presentes em
quase toda a superfície de Marte", acrescentou a
cientista, em conversa com o jornal britânico The Guardian.
Fósseis dunares
Mary Bourke começou por estudar o vale Vitória, no leste
da Antárctida, uma zona estranhamente livre de gelo no
continente branco, onde os ventos podem soprar a 250
quilómetros por hora, mas onde os cientistas têm uma
oportunidade única de espreitar os segredos do gelo. Ali
formam-se dunas de sedimentos que são como que
fossilizados pelo frio e que mantém a forma muito tempo,
resistindo à erosão.
O que Bourke acabou por constatar, comparando as
observações feitas no vale Vitória com as imagens dos
pólos de Marte recolhidas por satélite e pelas sondas na
sua órbita, foi que as dunas da Antárctida tinham grandes
semelhanças com as de Marte. Ambas escondem grandes
quantidades de água, que são o segredo da sua resistência.
Mas, até agora, os únicos instrumentos de trabalho de que
Bourke dispõe em relação a Marte são imagens colhidas em
órbita.
Em princípio, a água em forma de gelo está presente em
quase todo o subsolo, mas concentra-se em maior quantidade
nos pólos.
A sonda Mars Odyssey, da NASA, detectou em 2002 as
primeiras provas claras da existência de água em estado
sólido na superfície de Marte, através do seu
espectrómetro de raios gama. Algumas das últimas imagens
recolhidas pela Mars Odyssey que sugerem a existência de
gelo são de Abril e também foram analisadas por Mary
Bourke.
Bourke diz que também na terra as dunas escondem gelo, mas
que esse fenómeno nunca foi bem estudado e é visto como
uma coisa estranha.
O trabalho desta cientista revela que metade de toda a
massa do sistema dunar da cratera de Kaiser pode ser água,
o que são muito boas notícias para futuras missões
tripuladas a Marte. É na cratera de Kaiser que está a
maior duna do sistema solar identificada até hoje, a duna
Kaiser, que tem 6,5 quilómetros e uma altura de quase 500
metros e que pode esconder, segundo os cálculos de Bourke,
cerca de 500 metros cúbicos de água.
Mars Express deixa de estudar metano
Os cientistas reunidos em Dublin receberam estas notícias
como muito promissoras. Mas a prova de que a investigação
científica é feita de avanços e recuos vem de uma outra
notícia sobre a sonda europeia Mars Express, que orbita o
planeta vermelho. Em Fevereiro, a Mars Express detectou,
através de dados recolhidos por um instrumento seu - o
espectrómetro planetário de Fourier - grandes quantidades
de metano em Marte.
Em princípio, a detecção de metano é um indício de vida em
Marte, pois vai-se desgastando e, para se manter na
atmosfera, tem de ir sendo renovado. E as fontes de metano
são seres vivos ou processos geológicos, o que ajuda
fundamentar a suspeita de vida em Marte. Mas o
espectrómetro avariou-se e a ESA não prevê que seja
recuperável, noticiou a revista Nature. |