| Notícia in Publico,
23 Jan 2004
Sonda Mars Express detecta água em forma de gelo em Marte
A sonda europeia Mars Express detectou água sob forma de
gelo no pólo sul do planeta Marte, anunciou hoje a Agência
Espacial Europeia (ESA) em Darmstadt, na Alemanha.
O anúncio foi feito em conferência de imprensa pelo
responsável da missão europeia Mars Express, o italiano
Vittorio Formisano.
Esta informação foi confirmada pelo novo espectrómetro de
alta resolução da sonda (PFS). Os primeiros dados mostram
ainda que a distribuição do gás carbónico é diferente nos
hemisférios sul e norte de Marte.
Até agora só tinha sido dada como provada a existência de
vapor de água na atmosfera marciana. Os investigadores
ignoram ainda se se trata de gelo permanente, ou de gelo
que se evapora durante o Verão marciano e se forma durante
o Inverno. "Estamos no fim do Verão. O facto de o gelo se
encontrar ainda no pólo sul quererá dizer que se trata de
gelo permanente", disse o cientista.
Os cientistas europeus identificaram igualmente traços de
erosão provocados pela água. "As análises confirmam que
houve uma actividade de erosão provocada pela água na
superfície marciana", precisou, por seu lado, Gerhard
Neukum, especialista em planetas da universidade de
Berlim.

Durante a conferência, a ESA apresentou também várias
fotografias de alta resolução da superfície marciana
captadas pela câmara HRSC no dia 18 de Janeiro. As
imagens, recebidas na quarta-feira, reproduzem 1,87
milhões de km2 do planeta vermelho, ou seja, 100 gigabytes
de informação captada pelas antenas terrestres. Esta
câmara está preparada para tirar a maior fotografia
panorâmica (mais de 4000 quilómetros) de alta resolução
alguma vez captada no Sistema Solar. Esta tecnologia
permitiu criar uma imagem com 24 metros de comprimento por
1,3 de altura que hoje de manhã foi apresentada por um
grupo de crianças na conferência de imprensa.
Desde há 30 anos que os cientistas falam na hipótese da
existência de água sob forma de gelo na supercífie do
planeta vermelho, mas nunca tinham tido confirmações
indirectas como a que hoje anunciaram na Alemanha.
A sonda Mars Express da ESA, que tem a forma de uma caixa
e pesa cerca de 1200 quilos, foi colocada com êxito em
órbita marciana no dia 25 de Dezembro de 2003 a 2000
quilómetros da superfície, e está prestes a atingir a sua
órbita operacional final sobre os pólos do planeta.
Esta
missão representa um importante teste para a ESA, que quer
ter um lugar destacado na investigação espacial com a
iniciativa Aurora. "O grande objectivo disto tudo, a longo
prazo, é mandar homens a Marte. E a Agência Espacial
Europeia tem um programa para lá pôr um homem até 2030",
afirmou o astrofísico holandês Maarten Roos Serote, do
Observatório Astronómico de Lisboa, na altura em que a
Mars Express partiu em direcção ao planeta vermelho.
Desde Dezembro que a ESA e a norte-americana NASA
competiam pelas primeiras provas directas da existência de
água em Marte. Os primeiros a chegar à atmosfera do
planeta vermelho foram os europeus, mas a missão terminou
com um rotundo fracasso com o robô explorador Beagle2 a
não dar sinais de vida desde que foi lançado sobre o solo
marciano.
Por seu lado, a NASA conseguiu pousar com sucesso o robô "Spirit",
que continua a analisar rochas de Marte. O gémeo do "Spirit",
o "Oportunity", deverá pousar no planeta vermelho no
próximo domingo.
Subdirector do Observatório Astronómico de Lisboa pouco
surpreendido com anúncio da ESA
Reagindo sem grande surpresa ao anúncio da Agência
Espacial Europeia (ESA), segundo o qual a Mars Express
detectou água sob a forma de gelo na superfície do pólo
sul do planeta vermelho, Rui Agostinho, subdirector do
Observatório Astronómico de Lisboa lembrou, ouvido pela
Lusa, que "não se pode começar a sonhar com grandes
construções de cidades em Marte".
"É preciso agora fazer um estudo sobre a quantidade de
água existente, já que este é apenas um primeiro passo.
Até porque a água deve estar misturada com neve
carbónica", explicou.
"Não é uma novidade porque já se sabia que havia água em
Marte. Desse ponto de vista não é novo porque os
astrónomos já tinham medições da existência de água, tanto
sob a forma sólida como gasosa", disse.
"O que agora aconteceu foi uma confirmação com rigor e
detalhe da existência de água nos pólos", apontou,
acrescentando que isso vai permitir fazer um mapeamento da
presença de água no pólo sul.
Apesar de o cenário ser remoto, a exploração humana do
planeta - um dos objectivos traçados pelo Presidente
norte-americano, George W. Bush para os próximos anos de
conquista espacial - poderá ficar facilitada.
Caso fosse construído um "dispositivo que permitisse
recuperar a água existente em Marte", talvez "um ou dois
astronautas" a pudessem usar, mas mesmo isso é um "sonho
muito remoto", considerou.
Até porque, continuou Rui Agostinho, de acordo com
estimativas do conselho científico da NASA divulgadas no
ano passado, caso se juntasse "toda a água que se crê
existir em Marte isso daria apenas para fazer uma
cobertura com 30 metros de espessura". "É uma quantidade
mínima", acrescentou.
Outra questão quase sempre associada à existência de água
em Marte é a possibilidade de ter havido um quadro
propício à existência de vida. "A vida é uma questão que
não está necessariamente ligada com isto. Os astrónomos
sempre disseram que este planeta, no seu início, quando
ainda estava quente e havia água líquida em maior
quantidade, deve ter dado hipótese de se terem
desenvolvido organismos extremamente primitivos", afirmou
o investigador.
Nesse sentido, e para o astrónomo, será muito mais
importante estudar amostras do gelo agora detectado, que
poderá conservar ainda vestígios dessa vida primitiva
marciana. |