| Notícia in Lusa,
31
Dez 2005
Última noite de 2005 terá um segundo a
mais
Cada
minuto tem 60 segundos, uma noção que ninguém questiona,
mas que será desafiada pela Física em pleno «réveillon»,
já que 31 de Dezembro terá mais um segundo do que o
habitual, tornando-se no dia mais longo desde 1999.
A duração do dia foi definida há vários séculos com base
no tempo que a Terra demora a rodar sobre o seu próprio
eixo, mas na década de 1970 os físicos constataram que
este movimento giratório estava mais lento, pelo que
decidiram introduzir pequenas correcções para ajustar o
calendário à rotação do planeta.
«A rotação da Terra não é constante e tem estado a
abrandar. Se não se fizessem ajustamentos, daqui a um
milhão de anos havia um desfasamento de cerca de 12 ou 13
dias entre o calendário e o tempo real da Terra», explicou
à Lusa Rui Agostinho, vice-director do Observatório
Astronómico de Lisboa (OAL).
À medida que este desfasamento fosse aumentando, com o
passar do tempo, a nossa percepção das estações poderia
ficar «baralhada», uma vez que a Terra poderia ainda estar
no Inverno, quando os calendários já marcassem o Verão,
por exemplo.
Para evitar este fenómeno, os cientistas estabeleceram nos
anos 70 que seria acrescentado um segundo a cada ano, o
que não chegou a ser necessário, uma vez que o
abrandamento da rotação da Terra não é tão acentuado como
inicialmente se previa.
Assim, definiu-se que a correcção só tem de ser feita
quando existir um desfasamento superior a meio segundo
entre o movimento de rotação da Terra, medido através da
posição de uma estrela, e os relógios atómicos,
dispositivos de laboratório criados há cerca de 30 anos
que possibilitam uma precisão quase total na medição do
tempo por estarem sincronizados com a passagem dessa mesma
estrela.
Este ano atingiu-se o limite máximo dessa diferença e é
exactamente por isso que os físicos decidiram acrescentar
um segundo ao último minuto do dia 31 de Dezembro, o que
já não acontecia desde 1999.
Segundo Rui Agostinho, não é possível saber em que ano
voltará a ser preciso introduzir esta correcção, uma vez
que o ritmo que marca o movimento de rotação da Terra não
é constante.
O que os físicos podem afirmar com certeza é que este «segundo-extra»
poderá causar muitos problemas se não for contabilizado
nos computadores, uma vez que «a nossa vida quotidiana
assenta muito na transmissão electrónica de dados e
documentos, que funciona com base num calendário».
«Imaginemos que alguém tem de fazer uma transacção
bancária que vence no último dia do ano. Se for feita
neste segundo, que ainda pertence a 2005, ela poderá já
não ser aceite, uma vez que o calendário dos computadores
já terá passado para 2006», explicou o vice-director do
OAL.
Para evitar problemas, os relógios terão de marcar as 23
horas, 59 minutos e 60 segundos completos, algo que não
estão preparados para fazer.
«Há milhões de transacções feitas em todo o mundo num
único segundo. É preciso ter muita atenção para
sincronizar correctamente os computadores para que ninguém
seja penalizado», concluiu Rui Agostinho. |