

Notícia in Público, 22 Jan 2003 Medição das Ondas Gravitacionais Ajudará a Optar Entre Modelo do Big Bang e do Universo Cíclico
O Universo terá um princípio e um fim? Ou será que pode ter vários inícios e fins, num ciclo eterno? Esta última hipótese tem sido colocada por alguns cientistas e há experiências em preparação para tentar discernir entre o modelo do Big Bang e o do Universo cíclico.
PÚBLICO - Têm aparecido notícias sobre o Universo cíclico e eterno. De acordo com esses modelos, o que acontece ao Universo? PEDRO GIL FERREIRA - É um modelo que apareceu há um ano e tal, de pessoas das universidades de Cambridge e Princeton. É uma alternativa ao Big Bang. Vivemos num Universo a três dimensões espaciais, que está mergulhado num Universo com mais dimensões - cinco ou seis. Há outro Universo como o nosso, que anda a passear de um lado para o outro. Esses investigadores chegaram à conclusão de que universos com essas características podem colidir, mas não se destroem. Acontece algo semelhante ao Big Bang - ou seja, gera-se muita energia e esses Universos a três dimensões expandem-se. A certo ponto, começam a entrar em colapso. Depois, passam outra vez um pelo outro e voltam a expandir-se e a entrar em colapso. Andam para trás e para a frente, a baloiçar. É um ciclo. P. - Onde aparece então a morte térmica do Universo, em que dominaria a energia do vácuo? R. - Isso é outra coisa. Com as medições da radiação cósmica de fundo, acha-se que o Universo tem uma geometria euclidiana. Na escola aprendemos que a soma dos ângulos de um triângulo dá 180 graus. Podemos desenhar um triângulo de qualquer maneira, que a soma dos ângulos dá sempre o mesmo. Mas se desenharmos esse triângulo na superfície de uma esfera, a soma dos ângulos do triângulo é muito maior. É uma geometria diferente. E há outra variante, que é como se fosse uma hipérbole, uma versão de maiores dimensões. O que se descobriu é que o Universo tem uma geometria completamente euclidiana, a que estamos habituados. Um plano é um plano, um quadrado é um quadrado. No entanto, se medirmos a quantidade de matéria, não é compatível com o Universo euclidiano. Falta matéria, não a vemos toda. Consegue-se discernir, pela forma como as galáxias se deslocam umas em relação a outras, que há algo a que se chama matéria escura [matéria não detectável, mas que sabemos existir, por causa dos efeitos que provoca]. Mas, mesmo a matéria escura não chega para fazer um Universo euclidiano. Especula-se que há ainda o que se chama uma energia escura, que é misteriosa. É uma energia do vácuo. Não colapsa graviticamente, como a matéria. A radiação cósmica de fundo também indica que tem de haver algo mais. Essa energia escura é uma parte fundamental da teoria de um Universo cíclico. Faz com que o Universo no fim acelere. P. - Nesse modelo, poderá falar-se de Big Bangs constantes? R. - Cada pico é parecido com um Big Bang. P. - Como saberemos se o nosso Big Bang foi único ou faz parte de um ciclo? R. - Uma das questões é saber como vamos distinguir estas duas grandes teorias. Há uma medição que poderia distingui-las. A teoria de Einstein prevê que, da mesma maneira que há ondas electromagnéticas, haja ondas gravitacionais, que ninguém ainda viu. A previsão das ondas gravitacionais no modelo do Big Bang é diferente da do Universo cíclico. Está a ser montada uma experiência nos Estados Unidos chamada Ligo [a sigla de Laser Interferometer Gravitational Wave Observatory] e há uma proposta para pôr três satélites no espaço, que se chamam Lisa [a sigla de Laser Interferometer Space], para tentar medir estas ondas gravitacionais. Ainda é algo muito no futuro, mas é um teste. |