Evangelho São Lucas 2, 1-14 - Alguns apontamentos
1- Um recenseamento foi a circunstancia providencial para que Jesus viesse a nascer em Belém. A história profana documenta-nos vários recenseamentos a que na época se procedeu. Papiros descobertos no Egipto falam de censos ali feitos, em que se obrigavam também as mulheres casadas a acompanharem os seus maridos (para se garantir a verdade das declarações ), e a apresentarem-se ante o recenseador ou seu delegado para a prestação das declarações tributárias; assim se explica que Maria tivesse de acompanhar a José numa viagem tão incómoda (cerca de uns 150 Km).
2- Quirino. Da escassa documentação romana depreende-se que com Quirino se pôde ter iniciado um recenseamento durante a sua primeira missão (militar) na Síria, entre os anos 10 a 6 a. C.; numa segunda missão (como legado do imperador) nos anos 6-7 d. C., o recenseamento está claramente documentado. Dado que o nascimento de Jesus se deu uns sete anos a. C., em virtude do erro cometido por Dionísio, o Exíguo, quando no séc. VI fez as contas para a adopção da era cristã, a época referida por Lucas concorda substancialmente com os dados da história profana.
3- César Augusto, o imperador Octávio, que reinou dos anos 27 a. C. a 14 d. C.
4- Belém, em hebraico bet-léhem, significa casa do pão; ali nasce o «Pão da vida». Fica a uns 8 Km a sul de Jerusalém. Deduz-se que S. José ali teria a sua origem próxima, ou alguma propriedade ou condomínio.
5- Enquanto ali se encontravam. O texto deixa ver, como é compreensível, que estiveram em Belém durante algum tempo antes de o Menino nascer.
6- Filho primogénito. Ao chamar-se Jesus «primogénito» não se faz referência a outros filhos que depois a SS.ª Virgem de facto não veio a ter, mas sim aos direitos e deveres do filho varão que uma mãe dava à luz pela primeira vez (pertencia a Deus, tinha que ser resgatado, etc.). Também perece que «primogénito» era uma designação corrente para o primeiro filho, segundo se depreende de uma inscrição egípcia da época, encontrada em 1922 perto do Tell-el-Jeduiyeh, onde se diz que uma tal Arsinoe morreu com as dores do parto do seu filho primogénito.
7- Manjedoura. A palavra grega, fátnê, também pode significar curral. Seja como for, fica patente a extrema humildade em que quis nascer o Senhor do mundo. Segundo uma tradição que vem do séc. II (S. Justino, nascido aqui perto), Jesus nasceu numa gruta natural, já fora de Belém. Ali Santa Helena, mãe de Constantino, nos princípios do séc. IV, ergueu uma basílica de cinco naves que, depois de várias modificações, chegou até nós, sendo, por isso, a mais antiga igreja de toda a Cristandade. A confirmar a tradição da gruta, temos vários testemunhos que falam da profanação desta nos tempos do imperador Adriano, que ali erigiu uma estátua de Adónis. Isto confirma que se tratava de um lugar de culto dos primeiros cristãos.
8- Hospedaria. A palavra grega, katályma, oferece alguma dificuldade de tradução devido ao facto de tanto poder significar «hospedaria» (o kan que existia em muitas povoações), como «sala de cima» (cf. Lc 22, 11; Mc 14, 14), o aposento superior ao rés-do-chão, que tanto podia servir de salão como de dormitório. É estranho que, em qualquer dos casos, não coubessem mais duas pessoas, dada a boa hospitalidade oriental. Mas, para a hora do parto, não haveria o mínimo de condições de privacidade, por isso se recolhem para uma gruta ou curral. Um relato destes não se inventa, pois não era este o lugar digno para o Messias glorioso que se esperava. É impressionante verificar que para o «Senhor» de toda a Criação não havia outro sítio na Terra.
9- Pastores. É significativo que os primeiros a quem o Messias se manifesta seja gente desprezada e sem valor aos olhos da sociedade judaica, que os incluía entre os «publicanos e pecadores», pois a sua ignorância religiosa levava-os a constantemente infringirem as inúmeras prescrições legais. O facto de guardarem o gado de noite não significa que não fosse inverno, embora não saibamos nem o dia nem sequer o mês em que Jesus nasceu, o que se compreende, pois então só se celebrava o aniversário natalício dos filhos dos reis e pouco mais. Só tardiamente se começou a celebrar o nascimento de Jesus (em Roma já se celebrava no séc. IV a 25 de Dezembro). Ao chegar a noite, os pastores reuniam o gado numa vedação campestre (redil) e eles abrigavam-se da inclemência do tempo nalguma cabana feita de ramos, mesmo durante o inverno.
10- Com o nascimento de Jesus, Deus é glorificado — glória a Deus — e advém para os homens a síntese de todos os bens — a paz. O texto original grego pode ter uma dupla tradução, qual delas a mais rica: homens de boa vontade (que possuem boa vontade), os homens que são objecto de boa vontade ou benevolência divina. Os textos litúrgicos preferiam a segunda, mais de acordo com a visão universalista de Lucas. Segundo uma variante textual (menos provável) teríamos uma frase com três membros: «glória a Deus..., paz na terra, benevolência divina entre os homens».