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HISTÓRIAS |
João Pessoa - Brasil
A formiguinha aventureira
Era uma vez uma formiguinha muito curiosa, muito espertinha, muito corajosa e também muito vaidosa. Sempre procurava estar asseada, sempre se vestia diferente das outras formigas, era a mais bonita. Tinha a mania de ficar a mirar-se ao espelho.
Ela era também muito
sonhadora. Sonhava em viajar pelo mundo e adorava passear pelo bosque.
A rainha Paciência ficava sempre de olho na formiguinha, pois ela era órfã,
seus pais tinham morrido de uma morte superpesada, eles foram pisados por uma
pessoa de um metro e oitenta e cinco centímetros, e cento e dez quilos, que
tinha vindo fazer um piquenique no bosque. A rainha queria educá-la à sua
maneira, pois achava que ela tinha uma caídinha pra ser preguiçosa,
achava que ela vivia nas nuvens. E quem já viu formiga preguiçosa e sonhadora?
A rainha dizia que ela tinha vocação pra ser cigarra. Mas como? Se nem cantar
bonito como uma cigarra ela sabia, embora tentasse, mas não tinha jeito, tava
mais pra cantiga de grilo do que de cigarra.
A rainha Paciência mesmo com toda sua paciência, vivia brigando
com ela. Não dava trégua, queria que ela trabalhasse igual as outras formigas.
O inverno estava chegando, tinham que encher a despensa com bastante alimento,
pois tinha saído no jornal da televisão que esse inverno seria muito forte.
Todas as formigas estavam pegando alimento e lenha no bosque. Ela também
trabalhava, mas sozinha, pois detestava aquela fila das formigas. Sempre tudo
igual, todas se vestiam do mesmo jeito, faziam as mesmas coisas, viviam sempre
em fila. E só faziam trabalhar, trabalhar, trabalhar.
Ela sempre sonhava e dizia:
_Ainda vou ser a rainha das formigas, a primeira coisa que vou decretar será
acabar com a fila. Quem já viu tanta fila? Parece bando de abelhas...fila pra
pegar folha; fila pra trazer água; fila pra tomar banho; fila até pra ir pra
cama. Não aguento mais essa vida de andar uma atrás da outra, não sou vagão
de trem, eu hem?! Quero liberdade, quero ser independente, viajar, conhecer o
mundo, trabalha-se demais aqui, ninguém brinca, ninguém curte a vida. A
rainha passa o dia naquele trono, não coloca nem a cabeça na janela, vivemos
todos num formigueiro superapertado, quando entram duas formigas na cozinha, uma
tem que sair de ré, pois não dá pra fazer a curva com o corpo. Quando eu for
a rainha, tudo vai ser diferente.
Então, um dia que estavam todos dormindo, inclusive o vigia do
buraco de formiga , ela arrumou sua trouxinha enrolada num lençol e amarrado no
pau de vassoura e saiu pelo mundo atrás de aventuras.
Quando amanheceu, já estava bem longe do seu buraco. De repente
ela viu um coelhinho vindo na sua direção, quase que a atropelava.
_ Ei! Olha por onde anda! Quase que você me pisava.
_ Desculpa, não te vi. E o que você está fazendo sozinha? Nunca vi formiga
andar só. Vocês só andam em grupo, uma atrás da outra.
_ Eu sou diferente. Sou orfã. E ainda mais eu detesto a vida de
formiga. Não aguentava mais aquela vida de fila, minha vida era uma fila só.
Dei um basta a tudo isso, quero ser independente.Sou sozinha no mundo mesmo,
como já disse, não tenho família.
_ E daí? Conheço um monte de formigas orfãs, não interessa se tem
pais ou não, quem manda mesmo é a rainha. Ué...e a sua rainha deixou você ir
embora do buraco - quartel? Que rainha mais negligente, sem autoridade,
nunca vi disso. Uma revolucionária dentro do buraco e ela não fez nada?.Se você
fosse uma formiga do reinado da rainha Ditadurajá com certeza você estaria de
castigo na solitária.
_ Quem é essa rainha? Nunca ouvi falar. E olha que eu conheço
algumas rainhas. Os formigueiros de vez em quando se visitam, temos que estar
sempre unidas. Mas essa rainha Ditado...quero dizer Dentadura não conheço.
_ Rainha Ditadurajá, formiguinha! Ih... você é meio maluquinha,
né?
_ Ditadurajá, Dentadura, seja lá o que for... não conheço nem
quero conhecer e tenho raiva de quem conhece. Tchau! Estou perdendo meu tempo
com voce.
_Que formiguinha abusada, eu hem?! Se cuide, tchau!
E lá vai a formiguinha Aventureira se aventurar pelo mundo. Ela
prestava atenção a tudo que passava: cada árvore diferente, cada pedra, cada
flor, só não prestou atenção ao dia que já tava passando,
estava quase escurecendo.
E aí? Onde ela iria passar a noite?
_ Ai...tou ficando com medo, tá ficando escuro. Se pelo menos eu
achasse um buraco de formiga. Vai embora medo! Nem vem que não tem! Não tenho
medo de nada!
Continuou sua caminhada, quando, de repente, começou a escutar um
barulho:
_ Parece uma batucada, será uma festa? O barulho vem daquele lado, perto
da mangueira elegante.
O barulho vinha de um formigueiro que ficava embaixo da mangueira elegante. A
formiguinha foi devagarinho se aproximando. Ela era tão corajosa que teve a
ousadia de entrar no formigueiro. Êta formiguinha danadinha! O que ela viu
deixou-a chocada: Um monte de formigas trabalhando com correntes amarradas
nas pernas. Formigas velhas, crianças, doentes; formigas que não podiam de
forma alguma estar trabalhando. Que loucura era essa que ela estava vendo?
Pensou em sair dali correndo, mas não podia fazer isso com aquelas formigas,
tinha que ajudá-las de alguma forma, e também estava supercuriosa para saber
por que estavam trabalhando de madrugada e daquela forma como priosioneiras.
Ela se escondeu atrás de uma saliência do buraco de formiga e conseguiu
falar com uma delas. Era uma formiga bem velhinha, bem magrinha, as
perninhas eram mais finas do que a mais fina das teias de aranha que podia
existir no mundo. A formiguinha Aventureira teve uma pena enorme, teve até
vontade de chorar, mas se controlou e perguntou:
_ Por que vocês estão trabalhando, se vocês não têm mais condições
de trabalhar? Por que até formigas nenêns estão trabalhando? Por
que estão trabalhando amarradas? E por que estão trabalhando a essa hora da
noite?
Eram tantos porquês que a formiga velhinha magricela ficou tonta.
_ Primeiro você quer saber o quê? Aliás, antes de responder
todas suas perguntas eu gostaria de saber quem é você, e o que está fazendo
aqui no buraco-prisão Casa de Detenção Tirana, pertencente ao formigueiro da
rainha Ditadurajá.
_ Eu estava passando aqui por perto quando escutei um barulho esquisito,
então, me aproximei para ver o que era, pensei que estava havendo uma festa,
pois o barulho do martelo de vocês parecia uma batucada de samba. Acabei de
ouvir falar dessa rainha Ditadurajá.
_ É que a gente fica fazendo isso para tentar distrair as crianças,
fazemos nosso trabalho em ritmo de samba para elas não ficarem tão tristes,
pois como você deve ter percebido somos prisioneiras da rainha Ditadurajá.
Quando manda prender alguém que ela acha que fez alguma coisa errada, a família
da dita cuja é presa também, por isso que tem aqui velhos, crianças e
formigas doentes. Pois a família toda tem que ser presa, independente de idade
e de saúde. Mas o que você estava fazendo sozinha na floresta? A sua rainha
deixa você sair sozinha?
_ Eu fugi do meu formigueiro. Mas a rainha Paciência era um amor de formiga. Eu
fugi porque não aguentava mais a vida de formiga. Mas deixa isso prá lá...eu
gostaria de ajudar vocês. Eu só vi dois vigias na entrada da prisão, e mesmo
assim estavam distraídos jogando dominó, tem mais algum vigia por perto?
_ Não. Ninguém se arrisca a fugir. Temos medo, pois o fugitivo vai parar na
solitária.
_ Mas que rainha cruel! Isso não pode continuar. Irei ajudar vocês.Eu tenho
aqui na minha mochila um canivete super amolado, ele corta até metal, irei
cortar sua corrente e você me ajuda a cortar das outras. Depois amarraremos os
vigias e fugiremos pela floresta, correremos a noite toda e quando amanhecer já
estaremos bastante longe.
_Mas isso não é certo...temos que obedecer nossa rainha.
_ Eu topo e a senhora também, viu dona Graciosa? Muito prazer, eu me
chamo Dona Dorinha, escutei toda conversa de vocês. Gostei do seu plano e
gostei muito de você, muito obrigada por ter a coragem de nos ajudar.
_ Muito prazer dona Dorinha, também gostei da senhora, mas vamos lá, pois
temos que aproveitar a noite, e pelo que estou vendo, tem formiga que não vai
ter condições de correr, vamos ter que carregá-las, portanto, vamos logo com
isso!
Depois que todas estavam soltas e os vigias presos, as mais fortes
carregaram nas costas as mais fraquinhas e os nenens, e saíram correndo mais rápido
do que coelho assustado com bomba de São João. Quando o dia amanheceu, elas já
estavam bem longe da prisão. Mesmo assim a formiguinha Aventureira achou melhor
as últimas ficarem apagando os rastos, e para se sentirem mais seguras ainda
achou melhor atravessarem o rio. A formiga Aventureira pegou um pedaço de pau
grande e empurrou pra perto do rio, pediu pra que todas as formigas subissem
nele e deixassem a correnteza levá-las para bem longe. Desceram cascatas
enormes e foram parar num bosque lindo. Chegando lá a formiguinha Aventureira
reuniu todos numa pedra e fez uma reunião.
_Bem amigas...graças a Deus conseguimos fugir. Vocês agora são livres.
Acho que aqui não tem mais perigo. Jamais a rainha Ditadurajá encontrará vocês
aqui, pois estamos bastante longe do seu buraco reinado. E para comemorar vamos
catar comidas e bebidas, quem for músico improvise um instrumento, pois vamos
fazer uma festança, vamos cantar e dançar para comemorar nossa vitória, e
vamos ao grito de vitória! Iupi!!iupi!!
E todos gritaram: Iupi!!Iupi!!
A festa foi de uma animação tamanha, os outros bichos atraídos pela alegria
também participaram, mesmo sem saber o motivo da comemoração. A festa durou o
dia inteiro.
Quando acabou, todos adormeceram exaustos. Ao amanhecer a formiguinha
Aventureira organizou suas coisas para continuar a viagem, então, dona Graciosa
com o barulho da formiguinha Aventureira, acordou.
_Ué...você vai pra onde? Não vai ficar com a gente? E quem vai tomar
conta da gente? Quem vai mandar na gente?
_ Vocês agora são livres. Podem fazer com as suas vidas o que quiserem.
_ Ei! Acordem formigas! A formiga Aventureira vai nos abandonar! E agora
como vamos viver?
Todas se levantaram assustadas.
_ Você não pode nos abandonar, não faça isso com a gente, senão
podemos morrer.
_ Calma! Tudo bem. Irei ficar com vocês uns dias até ver que já estão
organizadas. Primeira coisa que temos a fazer é um formigueiro. De preferência
bem grande e bem bonito. Vou fazer o projeto nessa folha.
Ela fez um formigueiro enorme, cada família com seu quarto. Uma piscina, um
parque para as crianças, uma salão para dança, um salão para a ceia, ninguém
tinha visto um projeto de formigueiro tão bonito.
Depois de alguns dias ficou pronto. O formigueiro ficou maior do que pensavam. E
ficou de uma beleza estonteante. Todo enfeitado de flores, cada cantinho era
mais bonito do que o outro. Dava prazer ficar nesse formigueiro no inverno.
Ela ensinou pra elas a dividirem as tarefas de uma forma que ficasse com tempo
livre para se divertirem, e não precisava ficar em fila, cada um fazia sua
parte, todos faziam suas tarefas com o maior capricho, mas no seu ritmo e
cada um com sua vocação. As que tinham vocação para lenhador cuidavam da
lenha, as que gostavam de cozinhar trabalhavam na cozinha. E assim a vida do
formigueiro era alegria só. Tinha noite que cantavam e dançavam sem parar.
Todos viviam felizes, as doentes ficaram com saúde novamente. As
velhinhas eram tratadas com respeito. As crianças viviam sorrindo e fazendo
suas traquinagens.
Os outros bichos do bosque nunca tinham visto um formigueiro tão feliz. Mas um
dia a formiguinha Aventureira deu a péssima notícia: iria embora.
_Bem, o combinado foi esse, por favor não fiquem tristes.
_Nós sabemos, mas você não é feliz aqui?
_Nunca fui tão feliz na
minha vida. Mas eu tenho que continuar o meu destino.
_ E quem foi que disse que o seu destino não é ser rainha desse
formigueiro que você mesma criou?
Ela se virou para ver quem tinha falado isso com uma voz tão bonita.
Era o formiguinha Delírio e realmente ele era delirante, era o colírio
de todas as formiguinhas do formigueiro. Ela o achava lindo, forte, trabalhador,
mas sempre discreto, calado. Todas ficaram surpresas quando ouviram-no falar
assim.
E ele continuou:
_ Vocês não concordam comigo? Ela já pode ser considerada nossa rainha
oficial; aliás desde o início ela tem feito o papel de rainha, e das melhores!
Acho que não existe nesse planeta um formigueiro mais feliz. Não passamos o
dia em fila, todos nós somos livres, e aprendemos a dividir nosso tempo de uma
forma que trabalhamos com prazer e para viver com mais conforto e alegria, e não
como os outros formigueiros que vivem para trabalhar. Portanto, desejamos do
fundo dos nossos corações que você seja nossa rainha. Iremos respeitá-la
como a rainha das rainhas.
Todos aplaudiram de pé. A formiguinha ficou toda emocionada. Realmente ela era
muito feliz ali. Teve mais aventuras do que nunca imaginou. E principalmente
ficou encantada com o discurso do formiguinha Delírio. Ela aceitou toda feliz
ser a rainha oficial.
Os dias foram passando, ela e o formiguinha Delírio foram se apaixonando e
resolveram casar. Convidaram todas as formigas do formigueiro da rainha Paciência.
O casamento durou três dias e três noites de festa.
O formigueiro da rainha Ditadurajá teve uma revolução e tiraram a rainha
Ditadurajá do seu trono. O exemplo do formigueiro da rainha Aventureira foi
falado e imitado em todos os formigueiros do planeta Terra e até do planeta
Marte. Até as abelhas começaram a imitar a rainha Aventureira.
E todas as formigas de todos os formigueiros viveram felizes para sempre.
FIM