DANIEL E OS ELEFANTES

  

    Era uma vez um menino chamado Daniel que morava numa casa junto ao mar. Um dos  seus  passatempos preferidos era  apanhar conchas na praia, olhar as ondas do mar e imaginar que elas o levavam a todas as praias do mundo.

    Um dia, já ao fim da tarde, Daniel saiu de casa e dirigiu-se à beira mar. Foi caminhando ao longo da praia à procura de conchas  como sempre fazia e colocava-as num cestinho. Nesse dia, encontrou uma concha diferente de todas as outras. Era rosada, lisa e lembrava-lhe um animal. Os seus olhitos vivos estavam curiosos e, depois de  observarem bem a  concha, foi a  vez da sua boca  esboçar  um  lindo sorriso quando Daniel exclamou:       

          - É  um elefante! Esta  concha  tem a forma de um elefante!

         O seu espanto foi ainda maior quando a concha falou com ele.

          - Sim Daniel, tens razão. Sou um elefante em forma  de concha e posso transformar-me num  elefante  verdadeiro. Só preciso da  tua ajuda.

      - Eu ajudo-te, mas... como é que sabes o meu nome?

          - Foram estas ondas que me disseram. Sei que gostas  muito  de vir aqui, por isso, resolvi fazer-te uma visita. Gostavas de conhecer a minha terra?

          - Sim. Mas tu não  moras  ao pé do mar, pois não? Quando  vejo elefantes na televisão nunca estão numa praia.

      - Pois não, não moro na praia como tu. Mas o  país  onde vivo, o Quénia, é banhado pelo Oceano Índico e tem praias muito bonitas.  A minha casa fica no interior do país e é imensa e  vasta  como  os lindos céus e horizontes da minha África.

      - Tu levas-me lá? Que tenho de fazer?

      - É simples - disse o elefante. - só tens de me colocar debaixo da tua almofada quando fores dormir. Quando acordares já estarás no Quénia.

      - Está bem. - concordou Daniel.

E assim fez. Depois de jantar lavou os  dentes, vestiu o  pijama e foi logo para o quarto. A mãe até achou estranho, mas Daniel disse que estava cansado e a mãe ficou convencida.

A concha-elefante estava  muito  silenciosa, mas o  menino  fez o que prometeu e colocou-a debaixo da almofada. Estava tão  excitado que nem conseguia dormir, mas assim  que  fechou os olhos  adormeceu, para  acordar  logo  de  seguida  numa  das  magníficas planícies africanas.

O seu amigo elefante, um macho bebé de oito meses, estava junto dele  e  disse-lhe  que  se  encontravam no  Parque Nacional de Amboseli, o actual território da sua família.

       - Ó elefante! A tua terra é tão linda! O céu é tão azul como as ondas do mar e as nuvens são tão brancas que até parecem lagos  de leite.

           - Ainda bem que gostas. Olha, agora  vamos ter com a minha família. Se me demoro muito elas ficam preocupadas. Sabes, nós  os bebés, somos  muito  protegidos  pelas  nossas mães, irmãs, tias  e primas. Como o caminho ainda é  grande, podes  subir  para o meu dorso, assim não te cansas e ficas mais seguro.

   Ao dizer isto, o  elefante baixou-se e Daniel trepou para as suas costas, agarrando-se muito bem às grandes orelhas do amigo para não cair.

         Foram andando e passaram por umas acácias onde um bando de leões       dormia a sesta, quando Kigori disse a Daniel:

          - Só faltam dez quilómetros. Já consigo ouvir a minha família. Vou dizer-lhes que vais comigo.

      - É estranho! - exclamou o menino. - Não ouvi nada!

        - Eu sei. Os humanos não ouvem a nossa  linguagem  infrasónica.

Comunicamos através de vinte e cinco sinais diferentes que podem ser ouvidos a mais de dez quilómetros de distância.

      - A tua família é muito grande? Achas que a tua mãe não se importa que eu vá contigo?

      - Não  tenhas  medo! Nós os  elefantes  somos  muito  sociáveis e carinhosos. Como és uma criança, todos te vão  proteger e  se  ficares no meio do grupo estarás a salvo dos leões, dos leopardos, das hienas e dos outros animais.

         - Quantos anos tens?

         - Anos?! Ainda só tenho oito meses.

         - És tão grande! Se tu és assim, o teu pai deve ser enorme.

        - Sim, o meu pai deve ser muito grande, mas eu não conheço o  meu pai.

           - Não? - perguntou Daniel muito admirado.

           - Não! - exclamou Kigori despreocupado. - Os machos  adultos  não fazem parte  do grupo. Apenas permanecem com a fêmea durante os dois dias   de  acasalamento. Eu  faço  parte  de  uma  das  cinquenta famílias de Amboseli. Moro com a minha  mãe, a minha  irmã, tias e primas e com alguns primos ainda jovens. Ao todo somos quinze e é a minha avó que nos guia.

- A tua avó?

- Sim, é a avó Duma que nos avisa quando há perigo e todos temos

muito respeito por ela. Também é ela que sabe onde encontrar comida e água. A avó tem uma óptima memória e sabe  localizar  as

áreas por onde passaram os nossos antepassados.

- Olha Kigori! Ali à frente! É a tua família?

- Sim, - disse ele muito contente. - é a minha família!

Quando  se  aproximaram, Kigori  apresentou  Daniel à  sua  mãe N’Gaia, à sua irmã Kahli, à  sua  tia Mary, ao seu  primo  Kenny, à avó Duma e aos outros membros da família.

Mary  ofereceu-se  para  transportar  Daniel enquanto  Kigori  era amamentado pela mãe. Mary explicou-lhe que  aos seis  meses os bebés já comem vegetação, mas alimentam-se do leite da mãe até mais tarde.

Depois foram brincar com   os primos de  Kigori e  apresentaram Daniel ás girafas, aos macacos e aos pássaros. Daniel divertiu-se muito com as brincadeiras das crias, que fingindo que estão a lutar, agitam  as  trombas, abanam as  orelhas e  batem-se  com as suas grandes cabeças!

- Kahli, diz a Kigori e aos outros  que  se juntem ao grupo pois está na hora do banho. - ordenou Duma à sua neta.

Enquanto se dirigiam para as margens do pântano, N’Gaia  explicou a Daniel que os banhos na lama, além de  muito  divertidos

são muito importantes: - É assim que nos  refrescamos, e  quando a lama seca mata os parasitas e protege-nos das picadas dos insectos.

Daniel viu que os  elefantes  bebem  muita  água (entre 60 a 90

litros por dia) e achou muita piada à maneira como cada um suga a água com a sua  tromba  e  despeja-a  depois  na boca. Os mais novos divertem-se imenso, correndo atrás dos companheiros e deliciando-se com os enormes jorros de água que os atingem.

Depois de beber, chega a  hora  de comer. O resto  do dia  foi passado em busca de alimento. O grupo dirigiu-se à floresta e Daniel  viu os seus  amigos  alimentarem-se  de  ervas, folhas, raízes, cogumelos e cascas de árvores.

- Agora já sei porque precisam  de  uma  tromba  tão  grande -disse ele quando viu um elefante a  tirar  um tronco de  árvore         do  caminho  para  que  Kigori  e  os  outros  bebés  pudessem passar.

     - É preciso ter muita força para fazer isso!

       - Sim! - respondeu Eronko, um  jovem macho de dez anos         nossa tromba é muito  útil. Com  ela  podemos  cheirar, emitir sons, beber água, apanhar comida, arrastar árvores e também apanhar

              pequenas folhas delicadamente.

 

       - E para que servem os teus dentes, Eronko? - perguntou Daniel.

  - As nossas presas têm várias funções. Com elas  podemos  acumular os alimentos, remover a  lama, escavar  caminhos  ou  encontrar água. Também nos servimos delas para intimidar ou  atacar os  nossos inimigos ou rivais.

- Uma vez, o meu pai  disse-me  que  os  vossos  dentes  são de marfim e que por causa do  marfim, os  homens  gananciosos  e  maus matam os elefantes só para venderem o marfim. É verdade?

- Sim Daniel, infelizmente o que o teu pai disse é verdade. - respondeu  Duma, a elefante  matriarca. - Os  homens  são  muito  cruéis, porque já mataram e continuam a matar muitos animais como nós. Apesar de alguns humanos fazerem acordos e  criarem  reservas  para  nos protegerem, ainda existem caçadores malvados que  nos  perseguem e matam. Vários países africanos proibiram a exportação do marfim. No entanto, ainda somos alvo das armas dos caçadores furtivos. - concluiu Duma entristecida.

       Os  lindos  olhos  de  Daniel  também  ficaram  expressivamente tristes. Apesar de não passar de uma criança, sentiu que os seus novos amigos corriam perigo. Foi com toda a ternura e  alegria  das  crianças, que o menino se dirigiu à grande matriarca e lhe tocou carinhosamente na tromba. Os seus olhos alegraram-se e um lindo sorriso iluminou-lhe o rosto quando disse:

    - Sabes Duma, gostei muito de vos  conhecer  e  nunca  me  vou esquecer deste  dia. Obrigado  por  me  teres  dado  esta  oportunidade   Kigori.

    - Serás sempre bem vindo! - respondeu o jovem elefante meigamente.

- Está na hora de voltares a casa. - disse N’Gaia - A tua mãe já deve estar preocupada.

- Anda Daniel, vou levar-te até ao  rio e  o  rio  vai  levar-te ao mar.   - disse o seu amigo Kigori.

E quando a manada de elefantes o deixou junto ao imenso rio, o dia chegou ao fim. Daniel viu os seus grandes amigos pela última vez à maravilhosa luz do belo pôr do sol Africano. Sentiu-se  comodamente transportado pela corrente e deitou um último olhar àquele sítio magnífico. Já só via as grandes sombras ao longe que agitavam as trombas e, desta vez, o seu coração de menino escutou uma  mensagem de alegria e esperança, acompanhada  pelo som  mágico dos tambores         africanos que se ouviam por toda a savana.

 De repente, ficou tudo escuro, mas aos poucos foi acordando com os    raios de sol que lhe banhavam o rosto, com o barulho das ondas que lhe  cantavam  baixinho e com o  movimento  da  água que lhe molhava os pés numa suave carícia. Daniel deu por si estendido na areia branca e lisa da sua conhecida praia. Teria  sido um sonho? Talvez, mas a concha-elefante  ainda  estava  no  seu cestinho, quem sabe à espera de mais uma aventura ...